quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Beócio , mentecapto e troglodita

Cláudio José Lopes Rodrigues

Uma aura acabrunhante na sala de espera do consultório do urologista. O televisor ligado de nada valia como entretenimento. A mesma ineficácia das revistas espalhadas pelos assentos com seus horóscopos, palavras cruzadas, dicas de beleza, receitas culinárias, bisbilhotices sobre o mundo artístico e outras frivolidades.

Retraídos senhores portavam grandes envelopes com exames médicos. Guerreiros quebrantados de espadas recolhidas, só uma pequena parte além da bainha, qual a cabeça de um jabuti fora do casco. A sucuri transformada em intimidada minhoca.



Uma intensa e reiterada vontade de urinar. Decepcionantes idas ao banheiro. Insistente desejo, porém quase nada de micção. Pingos na roupa apesar das balançadas finais.



Muito líquido retido pela bexiga. A hipertrofia da próstata asfixiava o colo vesical e a uretra! O jato fraco e difuso, molhando o piso do banheiro provocando reclamações da mulher.



Cada gênero com os seus inconvenientes. A mulher com a decadência uterina, os calores vulcânicos e demais inconvenientes do climatério... Grandíssimos incômodos. O desconforto do exame ginecológico, entretanto, se apequenava diante do vexame do homem no urologista. A tecnologia médica na área urológica masculina carecia de muita evolução. Não dispunha de exames radiográficos que superassem procedimentos invasivos, como havia muito ocorria quanto aos pulmões, ossos, tendões... A técnica mais eficaz e segura para o exame da próstata era o humilhante toque retal.
O vexame acachapante agravava-se por piadinhas de mau gosto: o perigo é você se acostumar e querer fazer o toque toda semana; doutor Osório além de muito competente tem um dedo enoooooorme... As contestações a tais historias, no fundo, no fundo, pouco alentavam. O macho de verdade pode estar vestido de Carmem Miranda e continua macho, maaaaacho! Já o não macho, declarado ou enrustido, mesmo fazendo o papel de um feroz guerreiro das hostes de Átila, o Rei dos Hunos, denuncia-se até pelo modo de pegar na lança... Na hora do exame, entretanto, o arrazoado não neutralizava as atribulações de quem estava na ante-sala. O argumento maior – mais convincente e dilemático – era trágico: A dedada ou a vida!



Maldita hipertrofia prostática!



– Senhor Afrísio Andrada – Anunciou a atendente com frieza profissional.



O Dr. Sebastião Miranda recebeu o paciente com um sorriso simpático, um aperto de mão e uns tapinhas no ombro para conferir tranqüilidade e ânimo ao fragilizado cidadão.



Sentado ao birô diante do paciente, o médico sentiu-se, de súbito, recuar no tempo. Lembrou-se do serviço militar prestado havia trinta e cinco anos. Era o soldado 321 da Companhia de Comando e Serviços (CCSv). Um tempo difícil. Freqüentava, simultaneamente o Supletivo – o então Madureza ou Artigo 99. Tivera que ajudar o pai desde cedo e se atrasara nos estudos. A realidade do quartel ratificou-lhe uma convicção: fora dos estudos, suas chances de vencer, de firmar-se na vida, seriam nulas. Pardo, pobre, sem talento esportivo nem pendor para liderança... ele não se destacava entre os companheiros. Não tinha peixe, não era protegido de ninguém. Uma figura apagada.
O tempo elidiu da sua lembrança quase todos as pessoas que conheceu na caserna durante aqueles onze meses. A figura que permaneceu mais nítida na sua memória foi a do sargenteante, um sujeito prepotente. Sua arrogância aflorava através de um perene risinho sarcástico e palavras empoladas. Dirigia-se aos subordinados com presunção num distanciamento que nem mesmo o mais estrelado dos generais demonstraria.



O inexpressivo soldado Miranda sentiu o vergaste dessa prepotência de forma humilhante e desmedida em frente de toda a companhia numa formatura matinal. Houvera um engano na distribuição das camisetas. A de Miranda estava grafada 320 ao invés de 321. Não lhe cabia nenhuma culpa. O engano não fora dele. O sargenteante, entretanto, ao constatar o equívoco, encheu-se de fúria candente e com profundo desprezo gritou:



– Fora de forma seu animal! Fora de forma seu beócio, mentecapto, troglodita!



Esmagado pela humilhação, Miranda saiu de forma sentindo-se enxotado como um cachorro sarnento. Toda a companhia a olhá-lo. A maioria com um certo prazer por presenciar a agressão despropositada e imoderada. Outros, com ar de surpresa. Uns poucos, com expressão de revolta. Ninguém indiferente. Todos silentes.

O 321 engoliu em seco o ultraje. Sentiu em cima dele o peso de todos regulamentos e jargões castrenses, alguns plenos da mais pura insensatez. A mais estúpida de todas: superiornãoerra.



Sebastião Miranda, tenaz, concluiu os exames de Madureza, foi aprovado no vestibular e fez o curso de Medicina. A passagem pelo Exército transformou-se em uma linha cada vez mais remota do seu currículo e no número do Certificado de Reservista. Uma experiência tão remota e secundária que ele dificilmente lembrava-se ou tinha notícias dos co-participantes daquele universo. Entre as poucas informações, soubera que o sargenteante no ano seguinte fora transferido para unidades distantes, de fronteira.
As lembranças represadas por tanto tempo vinham, nesse momento, de enxurrada à memória do médico. Elas o arrastaram a uma longa viagem ao passado e, agora, ele regressava ao presente. Trinta e cinco anos!



Dois momentos muito diferentes da sua vida. Porém, os mesmos personagens. O Dr. Sebastião Miranda dos Santos, bem-conceituado urologista, diante do fragilizado e humilde capitão da reserva do Exército Afrísio Andrada, que não reconheceu o antigo subordinado.



O médico achou prudente não aludir ao seu efêmero tempo de caserna. Fez indagações pertinentes aos incômodos do cliente. Procurou neutralizar-lhe os temores. Mesmo se fosse o pior, a ocorrência de um tumor maligno, ficasse despreocupado pois hoje há tratamentos de grande eficácia, com prolongada e satisfatória sobrevida. Mas, pelo que está me parecendo, seu problema se restringe a estreitamento uretral, sem caráter de malignidade. Para constatar o fato com mais segurança, porém, é imprescindível fazer o toque retal.



O engurujado ex-sargenteante afrouxou o cinturão, tirou a calça, pendurou-a com a cueca no cabide e, profundamente afligido, sentou-se na cadeira para a verificação urológica. Quase deitado, as pernas para cima abertas em V. A região sedal bem pronunciada.

O Dr. Miranda lavou cuidadosamente as mãos, enxugou-as e calçou as luvas de borracha.



O ex-sargenteante Andrada naquela posição patética sentia-se um frango num espeto giratório de num forno elétrico. A sensação foi ainda maior quando o ex-soldado Miranda enfiou o indicador no reto do paciente e remexeu o dedo várias vezes.
Concluído o exame, o Dr. Sebastião Miranda dos Santos pusera termo a mais um dos milhares de procedimentos da sua rotina clínica. Estava inquieto, porém. Sentia-se tocado por uma certa angústia moral. Apesar do procedimento tecnicamente correto, ele julgava haver traído de alguma forma um princípio do Juramento de Hipócrates feito ao colar grau: Aplicarei os regimespara o bem do doentesegundo o meupoder e entendimento, nuncaparacausardanooumal a alguém.



Ao realizar o toque no ex-superior militar, ele lembrou-se daquelas palavras vociferadas há mais de três décadas: – Fora de formaseuanimal! Fora de formaseubeócio, mentecapto, troglodita!



E, naquele momento, o Dr. Miranda transformou o toque em um estupro.





* Clube do Conto da Paraíba – Tema: Viagem no tempo

** Dedicada ao Fisher, sujeito educadissimo... ao estilo Andrada.
Um dia nos reencontraremos, [vide titulo]. Talvez daqui a 3 decadas... mas vc vai engolir a sua arrogancia.

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